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Engenheiro explica como desenvolveu um robô consciente das próprias ações

Robôs

Primeiro, ele deixa claro que o sistema está longe de fazer um robô pensar. O engenheiro explica que, apesar dessa forma de autoconsciência ser extremamente rudimentar se comparada ao que vemos em humanos, o teste ajuda a traçar paralelos entre homem e máquina. “Por enquanto, trabalhamos em testes que permitam diferenciar o comportamento de um robô e de um humano”, diz o professor Bringsjord. Ou seja: o objetivo do experimento é explorar a capacidade dos robôs de “refletir” sobre suas próprias ações em atividades autônomas.

Dois dos três robôs testados receberam um comando (um apertar de botão na cabeça) que os deixava mudos. O terceiro não teve suas funções de fala realmente bloqueadas. Ou seja, dois ficaram mudos, e um não. O autor do teste então pergunta, em voz alta, qual deles recebeu a ordem para ficar em silêncio. Dois deles não poderiam responder de qualquer maneira, pois estavam mudos. Apenas um poderia falar, e a única resposta correta seria “eu não sei”, já que nenhum deles tinha como determinar quem havia recebido a ordem para ficar calado. O experimento ganha uma reviravolta quando o sistema desenvolvido pela equipe ouve o som da própria voz e se corrige: “me desculpe, agora sei que eu ainda posso falar”.

Assista ao registro da experiência em vídeo:

Para realizar o teste, os pesquisadores equiparam os robôs com uma inteligência artificial baseada em uma rede neural de processamento – algo mais sofisticado que um simples algoritmo seguindo sequências de instruções. Em outras palavras, assim como um rato de laboratório aprende que tocar uma tomada gera um choque elétrico, os robôs do laboratório Rensselaer também podem assimilar informações para estruturar novas linhas de raciocínio a partir delas. É como aprender com as experiências, e não receber ordens explícitas que geram reações pré-determinadas, como em uma linguagem de programação.

O que impressiona no experimento é que a máquina não foi programada para reconhecer a própria voz, nem possuía os dados necessários para saber que aquele não era o som de outro robô. O vídeo, por mais que pareça “mágica” à primeira vista – como se o pequeno humanóide, de repente, ganhasse “vida” –, serve apenas como prova de conceito.

Filosofia e robótica se encontram

Quando discutimos o significado de “consciência”, caímos no ramo da filosofia, o que pode gerar ainda mais confusão. Neste caso, Bringsjord determinou que todo o conceito por trás da pesquisa viria de uma ideia bem estabelecida na robótica, criada pelo filósofo americano Ned Block.

Block argumenta que existem dois tipos de consciência: a “consciência de fenômeno” e a “consciência de acesso”. “A consciência de fenômeno é como, por exemplo, quando você come um delicioso prato da culinária brasileira. É o seu prato favorito, e quando você o come, você tem uma sensação profunda, uma consciência envolta em memórias e emoções que descrevem o que é comer aquilo. Esse é o tipo de consciência que nós, humanos, temos”, explica Bringsjord.

Esse tipo de consciência, relacionada a lembranças, memórias, sensações e outras subjetividades, está ainda bem longe de ser emulada por uma inteligência artificial. Já a “consciência de acesso”, ou ao menos um vislumbre dela, foi reproduzida com sucesso pelo robô do experimento.

Trata-se de “uma coleção de estruturas formais – dados, informações, estruturas de raciocínio e tomada de decisões – que são associadas aos comportamentos que vemos em criaturas que contamos como conscientes; animais, etc.”, diz Bringsjord. Em outras palavras, é como saber que um determinado som corresponde à própria voz, mas não pensar “nossa, como a minha voz fica esquisita no vídeo”.

Foto por: Reprodução

“Eu vi coisas que vocês não acreditariam” – Roy (Rutger Hauer), o andróide com medo da morte no filme “Blade Runner” (1982)

É como estabelecer uma relação entre duas informações (“o som X” e “o som da minha voz”), chegar a uma conclusão (“o som X é o som da minha voz”) e então relacionar essa conclusão ao problema originalmente proposto (“quem de vocês ainda pode falar?”). Pode parecer bastante simples, mas para o estágio do desenvolvimento de inteligência artificial em que estamos hoje, é um grande avanço.

Bringsjord acredita que, no futuro, será tão difícil distinguir seres humanos de robôs quanto no clássico filme Blade Runner, de 1982. “Talvez atividades de alto nível criativo estejam além dos limites. Mas para outros efeitos, você não saberá dizer se um taxista que está dirigindo é um robô ou humano, por exemplo.”

“Mas, só porque é difícil identificar, não significa que não exista uma diferença fundamental entre eles. As pessoas têm o costume de confundir as diferenças metafísicas entre humanos e robôs. Por enquanto, nós estamos apenas trabalhando nos comportamentos e nos testes que tornam essa diferenciação possível”, acrescenta o engenheiro.

Se devemos nos preocupar com a rebelião das máquinas? Bringsjord acredita que é preciso tomar cuidado com o avanço em pesquisas de inteligência artificial. “Conforme os robôs se tornam mais poderosos do que pessoas, e cada vez mais autônomos e fora de controle, isso é muito preocupante. Esse é um dos motivadores da nossa pesquisa. Se teremos robôs capazes de tomar decisões morais, então eles precisam ter um conceito de si mesmos. Eles terão de ser capazes de refletir a respeito deles mesmos e a respeito dos seres humanos com quem eles interagem.”

O estudo completo pode ser acessado neste link (em inglês), que inclui todos os dados, referências, fórmulas e equações usadas no desenvolvimento do robô “autoconsciente”. Uma versão mais longa e detalhada do estudo deve ser publicada ainda este ano.

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